segunda-feira, 5 de maio de 2008

Enantiose.

Eu poderia ter gostado de você. Poderia ter experimentando sensações novas com essa probabilidade. Entretanto, quando a possibilidade do sentimento amanheceu, começou formar para chover e a ventania, que antecede a chuva, varreu para longe de mim o gostar.
Contudo, o que mais desafina a canção que um dia poderia ter sido nossa, é a indecisão.

Você é tão indeciso quanto um bêbado na hora de atravessar a rua.

O tempo escorre enquanto o bêbado fica analisando o melhor momento de sentir o cheiro das pegadas sendo deixadas para trás. E o que é mais desgastante entre o período da indecisão e o som dos primeiros passos, é que talvez o que esteja no outro lado da rua não mais vai estar quando o bêbado chegar.
Eu não gosto de você. Assim, não gosto. Talvez eu goste de outro alguém. Mas de você eu não gosto. Te vejo trancado do lado de dentro, porque o medo que você tem de ficar preso do lado de fora é maior. Bom, caso isso aconteça, vou te lembrar que bem na esquina existe um chaveiro, caso você precise. E, se por um acaso você topar com o bêbado, verá que os espelhos formarão entre si um ângulo e as milhares de imagens compostas te deixarão tonto. Nesse momento, recomendo que você vá para casa tratar da ressaca.

Por fim, a ficha caiu, mas a ligação há muito tempo havia sido cortada.

Enquanto você estiver andando para casa desprovido de profundidade, eu estarei imersa em alguma sagacidade. À medida que você estiver na sua superficialidade, eu estarei mergulhada na plenitude de querer beijos em poesia, abraços em prosa e o silêncio literário das bocas.
Entre as gigantes passadas que nos separam, algum resquício de memória mostra a pequenez efêmera de um passado que nunca nos pertenceu. Quando o tempo das lembranças chegarem, talvez você não precise mais curar sua ressaca e já ande com uma chave no bolso e eu, com certeza, estarei experimentando alguma asa e já tenha voado para mais longe de ti do que você de mim.

No final, quase antônimos: você que nunca gostou de mim e eu que quase gostei de você.

sábado, 22 de março de 2008

Metamorfose regressiva.

Aquela janela de madeira velha

Torturada por lembranças de olhares

Palavras de um adeus

E pela tua imagem dolosa que acabo de ver passar

Foi marcada pelo transformismo do teu semblante:

Uma cor descolorida na tua pele;

Olhos desbotados de existência

E a memória de que um dia alguém foi.

Aquele perfume adocicado

Substituído pelo cheiro de cigarro

E o emblema sereno

Que outrora fora seu sorriso

Foi impregnado de fumaça.



Sorrateiramente demudada em restos.



E a recompensa de tanto desgasto

É a solidão que te acomete

E a paranóia de vossa mente

Teus brinquedos de devaneios translúcidos

Que afirmava ser salvação

Tornou motivo da tua morte lenta.

E a ti sobrou o nada:

Subjugada ao menosprezo

Das tuas futuras

Cinzas decrépitas

As quais

A terra rejeitará

Por tamanha

P O D R I D Ã O

sexta-feira, 7 de março de 2008

Resposta.

São alguns (muitos) dias sem te dar resposta para aquela sua carta, eu sei. Mas não foi por displicência. Na verdade, foi porque não queria responder assim naquele momento, estava tão extasiada que resolvi esperar as borboletas, os tigres e os dragões se acalmarem dentro de mim. É assim que as coisas ficaram depois que li aquela sua (não-última) carta.

Sabe, existem alguns sentimentos dentro de mim que eu não fazia idéia de que existiam, ou não existia e você os criou. O fato é que eu vivo tendo déjà vus emocionais. Parece difícil de acreditar né? Contudo, todos os sentimentos meus que são seus, parecem que há muito tempo estavam guardados e só foi você aparecer para me ensinar o lugar onde eles estavam. É confuso e eu não consigo entender e às vezes, eu nem quero. É tão bom sentir que deixo apenas assim... Na abstração de um plano alfa só meu.

Coisas só nossas. Lembrei disso agora. Das coisas só nossas. Coisas que não comento com ninguém, porque só quero pra mim. Músicas, palavras, frases, brincadeiras, a sintonia na hora de pensar. Ah, e as risadas, claro! Uma das coisas que mais gosto são as que deixamos subentendidas, elas costumam causar um furor a mais nos dragões, tigres e borboletas dentro mim. Chega a ser engraçado e sim, eu acabo rindo de mim.

E os sinais! Sim, sim, os sinais. Os sinais que acabamos deixando para o outro. Algumas coisas codificadas. Afinal, para quê dividir com os outros o que só diz respeito a nós? (Vai aí mais um sinal). E os segredos não tão secretos que ficam codificados por aí.

[...]

Saudades de você. Essa teimosa saudade que nunca passa e parece que sempre aumenta. Essa saudade que me faz te procurar em toda música que eu escuto e nos sonhos mais malucos. Essa saudade que aperta, mas não é ruim de sentir.

[...]

Escrevi demais. Escrevi coisas que estão longe de serem explicadas tão bem, senão sentidas. Usei a palavra sentir e suas variações demais também. Entretanto, não tinha uma palavra que se encaixasse melhor... Você é isso: um sentir quase palpável. É, esquece o que escrevi acima e só sente, é melhor. No mais, só quero saber como vai você.

Beijos, estou com saudades (como de costume).

Se cuida.

Sem assinatura.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Inquietações viventes. Morfina do prazer.

Eu tinha acabado de chegar da rua. Ainda estava atordoado com aquelas palavras, elas estavam zunindo na minha cabeça. Joguei as chaves na mesinha do centro e me atirei no sofá. Passei a mão pelos cabelos e pela minha barba.

Havia tempo que eu não a via. Finalmente ela me atendeu numa das minhas milhares de ligações e marcamos um encontro. Aquele barzinho com música ao vivo era bem agradável. Quando cheguei, ela já estava lá sentada com um copo nas mãos e olhando para o nada. Sentei-me a sua frente e ela voltou à realidade.

- Ei John.

- Oi Sofia! Errr... Como você está?

- Você não me chamou aqui para isso, John. Por que não vai direto ao assunto?

Eu olhei seu rosto e me fixei nos seus olhos – Você simplesmente sumiu. O quê aconteceu?

Ela me olhou com seus olhos brilhantes, deu um sorriso, virou o rosto e deu um gole na sua bebida. Depois seus olhos voltaram aos meus.

- Sabe como é né, John. O tédio conseguiu vencer a relação. Nós caímos na monotonia e eu quis me livrar disso.

- Ah! Entendi, Sofia, você se enjoou e resolveu me mandar, vamos dizer, passear e...

Ela me interrompeu:

- Não quis causar constrangimentos e nem quero brigar, John. Você cometeu seus erros e eu te perdoei por isso. Agora é sua vez de esquecer essa minha falha de não ter te dado respostas.

- Será que você pode me dar respostas agora, Sofia?

- Pra quê você as quer, John? É melhor continuarmos com nossas vidas.

- Exatamente, Sofia. Eu quero continuar com minha vida, mas preciso preencher a lacuna que você deixou nela.

- Sabe John, nós...

Foi minha vez de interromper:

- Sofia, eu não esqueci o quê você já me fez sentir e eu quero ter isso de novo. Quer saber, eu nem ligo se você sumiu, eu só quero saber se ainda tenho chances de voltar a fazer parte de você.

Ela ficou séria, olhou-me demoradamente, depois disse:

- Eu quero intensidade. A intensidade que me faça conhecer sentimentos que eu jamais ousaria dizer que existem. Eu quero me sentir viva no mais alto grau que isso signifique. Você pode me dar isso, John? Você pode?

Depois disso ela pegou a bolsa e saiu. Eu fiquei lá parado sem ação. O quê dizer? O quê ela queria dizer?

Voltei para casa, joguei as chaves na mesinha do centro e me atirei no sofá. Passei a mão pelos cabelos e pela minha barba...

Pequenas memórias.

Sabe aquelas caixas que guardamos coisas antigas? Aquelas caixas que têm cartas velhas, aquela flor secada dentro de um livro, fotos e etc e tal? Então, ontem eu abri uma dessas minhas caixas e devo dizer que me deu aquela sensação de prazer e trabalho realizado [?]. Bem, digamos que trabalho realizado, porque eu me lembrei de tantas coisas passadas das quais não me arrependi de ter feito ou deixado de fazer que chegou dar aquela sensação de dever cumprido. Enfim, voltando à minha caixa antiga... Eu saí abrindo cartas que recebi e cartas que nunca enviei, li poemas antigos, pensamentos antigos e ri bastante do modo como eu via as coisas. Ri dos erros de português, da minha letra e chorei... Chorei depois de ter lido uma carta que não mandei e de uma carta que recebi. Chorei quando via fotos de quando eu era pequena, fotos de amigos. Nesse momento minhas lágrimas contornavam o sorriso que se formava no meu rosto. Bom mesmo é sentir saudade de momentos que não deixarão de existir na nossa memória. Digo ainda: “Mate-me se perder a memória por completo. Posso esquecer quem sou, mas nunca esquecer dos momentos que me fizeram sorrir e das pessoas que me fizeram conhecer a felicidade”. Remexendo mais as coisas daquela caixa, encontrei ao fundo dela um diário antigo. Remexi mais um pouco e achei a chave. Lá se vai o momento de tensão e curiosidade extrema de recordar os segredos que eu nem lembrava mais que um dia havia tido. Bom, vou logo dizendo que nunca remexi tantos sentimentos dentro de mim. Além de relembrar segredos, eu relembrei emoções. Vou te contar viu, que coisa lindamente bizarra essa de relembrar emoções. Voltando ao conteúdo do diário, é possível se contorcer de rir de você mesmo? Sim, é. Eu ri de como eu era boba, dos meus amores platônicos, da minuciosidade de detalhes de momentos, de personagens de livros, das tempestades em copos d’água. E li várias páginas sobre crises existenciais, mudança de personalidade, gritos internos e todas aquelas coisas de transição.

Por fim, era como se eu tivesse feito uma viagem no tempo. E sabe, quanto mais o tempo passa, mais as coisas ficam complicadas e cheia de pormenores impetuosamente estressantes. O ideal é tentar congelar o tempo no melhor da vida. Não que você vá achar uma fonte da juventude, não é isso. É você tentar preservar os melhores sentimentos, já tentou?

Aí chegou a hora de guardar a pequena bagunça que havia feito. Guardando tudo de volta naquela caixinha forrada de papel de presente. Guardando saudades. Guardando lembranças. Guardando sentimentos. Guardando sorrisos e lágrimas misturados a tintas de canetas e cores de fotografias. Guardando laços invisíveis que só nós mesmos sabemos.

Monólogo invisível ao espelho

Se é possível, não sei...

Se for impossível pode haver uma exceção,

Algo ímpar ou sentimento sem plural?

Se eu me jogo, eu me aparo...

Se caio, recupero...

Machucados?

Só restam cicatrizes pequenas.

Sensibilidade insensível!

Não sei... Não sei... Não sei

Não sei se amo. Não sei se odeio.

Não sei de você.

Na verdade, não sei de mim.

Medo. Já sentiu?

Sofrimento, já causou?

Se o pra sempre agora acabou

- Como vai ser?

Fingir algo que presente

Não sinto. Ou seria antagônico?

Será que sinto ainda? Ou nunca existiu?

Ou nunca existi?

- Uma pergunta: Vale à pena?

Confuso.

- Luz sobre o papel de carta, por favor!

Ou há luz e não enxergo?

- Merda!

Pergunto de novo: “Vale à pena?”

- Responda!

*Eco*

As flores murcharam.

Na verdade foi tudo muito pequeno. Sim, pequeno. Pequeno de uma maneira que se tornou vazia e as lembranças ficaram distantes como se eu não lembrasse detalhadamente. Não foi difícil, nem doloroso, nem lamentoso... Foi indiferente. Sem sentimento, sem amor, sem culpa... E o “eterno enquanto dure” foi quebrado em milhares de partes como uma peça de cristal espatifada que acabou sendo varrida para debaixo do tapete. O que se passou ficou pequeno, minúsculo, amiúde. Veio, aconteceu e já foi... Sem voltas, sem saudades, sem nada.