Contudo, o que mais desafina a canção que um dia poderia ter sido nossa, é a indecisão.
Você é tão indeciso quanto um bêbado na hora de atravessar a rua.
O tempo escorre enquanto o bêbado fica analisando o melhor momento de sentir o cheiro das pegadas sendo deixadas para trás. E o que é mais desgastante entre o período da indecisão e o som dos primeiros passos, é que talvez o que esteja no outro lado da rua não mais vai estar quando o bêbado chegar.
Eu não gosto de você. Assim, não gosto. Talvez eu goste de outro alguém. Mas de você eu não gosto. Te vejo trancado do lado de dentro, porque o medo que você tem de ficar preso do lado de fora é maior. Bom, caso isso aconteça, vou te lembrar que bem na esquina existe um chaveiro, caso você precise. E, se por um acaso você topar com o bêbado, verá que os espelhos formarão entre si um ângulo e as milhares de imagens compostas te deixarão tonto. Nesse momento, recomendo que você vá para casa tratar da ressaca.
Por fim, a ficha caiu, mas a ligação há muito tempo havia sido cortada.
Enquanto você estiver andando para casa desprovido de profundidade, eu estarei imersa em alguma sagacidade. À medida que você estiver na sua superficialidade, eu estarei mergulhada na plenitude de querer beijos em poesia, abraços em prosa e o silêncio literário das bocas.
Entre as gigantes passadas que nos separam, algum resquício de memória mostra a pequenez efêmera de um passado que nunca nos pertenceu. Quando o tempo das lembranças chegarem, talvez você não precise mais curar sua ressaca e já ande com uma chave no bolso e eu, com certeza, estarei experimentando alguma asa e já tenha voado para mais longe de ti do que você de mim.
No final, quase antônimos: você que nunca gostou de mim e eu que quase gostei de você.