segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Corda bamba.

Não quero que me doa nada hoje. Nem amanhã. Nem depois. Quero ponto final em tudo, quero que tudo chegue logo no final, que se acabe. Mas não quero isso de um todo querer. Quero de querer um pouco, a outra parte do querer fica na surpresa do mistério. Por isso meus quereres se dão tão bem. Pólos energicamente contrários. Falta, apenas, um pouco mais de emoção, de circo: malabares, cores, mágicas, brincadeira, risadas e piruetas. Só não falta a platéia. É um espetáculo para poucos, ou ninguém - além de mim - ou apenas um par, quem sabe. Talvez, no final, eu descubra o ímpar: só o eu.

Por enquanto, sou equilibrista e nada mais.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Perfume da pele: à sensação. Ao prazer do toque. Ao queimar da epiderme. À fumaça dos poros.

“Ando tão à flor da pele
Que até um beijo de novela me faz chorar”
(Zeca Baleiro)




Ela nem percebeu direito quando ele chegou. Quando tudo aconteceu, de súbito. Ela foi se descobrindo gradativamente:
Primeiro, a confusão.
Segundo, a doença.
Terceiro, a aceitação.
E o quarto ponto ainda está a se desenrolar. Está, ainda, caminhando sobre linha tênue que separa o mergulho de ponta, a imersão de todo o corpo – e alma – ou cair do outro lado, afastado, em um horizonte iludido, distante de tudo isso.
Contudo, ela sabe. Ela sabe com todas as L-E-T-R-A-S que não se pode fugir disso, seja lá o que isso for. Seja lá o que signifique.
Uma vez, tudo bem, há o perdão. Duas vezes, não está tudo bem, tem algo dissemelhante.
Há o perdão, ainda! Mas não se pode correr. E é um deus-nos-acuda. Uma lambada de pensamentos. Um punhado de notas musicais. E ¼ de lágrimas não caídas. Além das gargalhadas, claro. Além do tudo pode acontecer, inclusive o nada.
Ele ainda está lá. Está sorrindo para ela, criando ciúmes nela. Prendendo-a sem nem saber. Dizendo palavras que eleva o [des]conhecido dela, tomando atitudes que germina a dúvida dentro dela. E, por enquanto, ela é só isso: morna. Tudo o que ela não queria ser. Tudo que ela é por tempo indeterminado.


E o quente [dela], queima à flor da pele.


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Guarde um sonho bom para mim.

Talvez ela começasse a sonhar no estilo do “era uma vez”, mas era algo mais diferente, no estilo mais dele, no estilo de “uma vez era”. Olhados de cima, nem pareciam que existiam, sabe. Estava escuro e era noite. O céu ia estrelando cada vez que eles matavam um pouquinho da saudade. A única coisa que se via, de cima, era uns pontinhos cor-verde-que-dói-os-olhos e uma brasinha em chama. De perto, pareciam um segundo captado do clique fotográfico: o fundo escuro e eles com quase movimentos, em pause e com a legenda, interprete. Um minuto para a imortalidade em cores de outono, meio amarelado pelo flash e embaçado pela agitação da câmera - os olhos.
Ela chegou atrasada. Quando entrou na sala, ele estava lá, calmo, sentado e lendo – como de costume. Ele a viu e fechou o livro com aquele sorriso que se diz oi. Ela respondeu também, com um sorriso de olá.
- Hoje poderei desfrutar da sua companhia? – perguntou ela.
- Só se eu puder ter a tua! – respondeu ele.
- Faz tempo desde a última vez!
- É, faz tempo. Estava sentindo falta de suas palavras.
- E eu das suas.
- Vamos para a varanda?
- Vamos.
Ele sentou na rede. Ela sentou na sacada para observar o céu com mais facilidade.
- Ainda o céu. – Disse ele.
- Ainda. – ela falou olhando para cima.
- Você com seu vício inocente e eu com o meu nocivo – Disse ele acendendo o cigarro.
- Nem por isso você deixa de compartilhar os meus vícios.
- E você nunca precisou compartilhar dos meus. Diria que não faz parte da multidão em furta-cor que você carrega, mesmo sozinha.
- Eu compartilho de um vício seu: as palavras.
- Essas palavras que tanto amo.
- É, essas palavras que tanto amo e odeio. Paradoxalmente, a antítese mais gostosa da minha vida.
- Intensas! Todas as palavras.
- Como seus sentimentos. Como as cores que te compõe.
Ele riu.
Ela olhou para o céu.
- Que dia é hoje? – perguntou ela.
- Você escolhe. Pode ter sido ontem, hoje ou amanhã. Eu prefiro dizer que é agora.
- Sem linearidade.
- Sem linearidade.
- Gosto de como subentende o segredo do tempo. Tu fazes uma narrativa sem início, meio e fim instigando a quem dizes sobre o valor da estação.
- Tempo é vida.
- É tudo e nada.
- Estou em primavera.
- Eu em outono.
- Por que outonas? Sempre me pareceu tão primavera.
- Estou me resguardando do exterior.
- Para se encher dos sentimentos não-corruptos do mundo?
- Na verdade, para expor ao mundo meus sentimentos contemporâneos.
- Passei um tempo em inverno com os olhos afundados para meu “in”. Via um abismo e quando eu o encarava ele lia meus medos.
- O que você fez?
- Convidei-me para sair!
- E agora primaveras com seu “in” para “out”.
- Diria que vivo lendo meu out e escrevendo-o, mas é que o out tá tão dentro do in que às vezes misturo tudo.
Riram.
- Como você definiria nosso convívio? – Perguntou ela.
- Nuance. Para mim, não existe melhor palavra.
- Você não poderia ter definido melhor.
- Assim como você me definiu de caixa de som, na foto.
Sorriram.
- Ainda está lá.
- Ainda estou lá.
Silêncio.
- Sabe aquela sensação de que você tem um amigão/amigona e ficam grudados o dia inteiro, mas por razões do destino acabam se vendo menos no dia a dia e dá aquela saudade do tipo: véééi, preciso falar urgentemente com Maria/Chico. E aquela saudade só passa quando voltam a andar grudados de novo??
Então, é assim que me sinto quando ficamos muito tempo sem trocar palavras.
Ele a olhou com carinho.
- Sabe, essa sua mania de fazer de cada sentimento uma história diferente me encanta. Precisamos mesmo sempre prosear, falar sobre o céu, sobre o mar, sobre o mais!
Olharam-se em sorriso.
- Como é quando acorda? – Interrogou ele.
- Sei como é meu sempre. Sempre soube, desde que nos conhecemos sem nos conhecer, que és meu amigo. É sentir, sabe. Sinto que é e isso me basta.
- Sou cético. Mas quando se trata de sentir, como sabes, acredito.
- “Todo abismo é navegável a barquinho de papel”, Guimarães Rosa. Lembrei disso agora, sobre o abismo de antes, dos medos.
- “E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti”, Nietzsche.
- O abismo nada mais é do que o lado escuro que não conhecemos da casa.
- Só acender a luz. O difícil, apenas, é encontrar o interruptor e encarar o que se viu, porque nem sempre gostamos do que vemos e apagamos a luz.
- Mas não seremos os mesmos depois da nova descoberta.
- Mas pode-se fingir.
- Fingir é superficial. Não combina com você que é intenso.
- Nem com você que é feita de amor da cabeça aos pés.
Foi a vez dela: olhou-o com carinho.
- Você é o conjunto de tudo. Se é para te falar, falaria e falo que é feito de poeticidade da cabeça aos pés. Sempre será poesia. Rapaz, vou guardar tuas cores comigo.
Ele levantou e beijou-a na testa.
- Qual será nosso próximo cenário? – Perguntou ele olhando para o céu.
- Talvez uma casinha na rua Himmel antes do bombardeio. – ela respondeu olhando para o céu.
- Sempre o céu.
- Sempre.
Silêncio.
- Como de praxe, ótimas trocas de palavras. Mas tenho que ir, porque o galo já canta.
- Sempre ótimo falar-te. Obrigada por ter guardado um sonho bom para mim. – Disse sorrindo.
- Te vejo?
- No meu sonho, no teu sonho!
Ele riu.
Ela completou o sorriso:
- Bom acordar-te.
- O mesmo para ti, querida. Acordarei – disse com um sorriso serelepe – vendo uns pontinhos verdes toda vez que piscar.
Ela olhou para as unhas: verde-fluorescente-brega.
Riram.
Abraçaram-se.
Despediram-se.
Eram eles: queridos amigos.
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Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba, Jota?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Quimera.

Seus olhos verde-musgo procuravam algo desesperadamente para se apoiarem.

Eu senti pena da sua fragilidade infantil. Suas rugas não diziam muita coisa. Não eram, sequer, experiência. Uma criança debilitada que procurava o seio de uma mãe para se sentir protegido. Uma criança afugentada em uma pele de uva seca.

Da sua boca não mais escorria o escárnio, mas estava trêmula para gritar um choro angustiante.

E seu tronco encurvado, as pernas debilitadas... Não causava mais medo. Não era mais temido como antigamente. As pessoas agora sentem pena, dó! O peso das traições, intolerância, chicotadas, batidas! Ah, essas pesam sobre seu coração. Nunca foi amado, nunca amou. Agora o fardo do não-amor aperta tua mente. Não te servem mais bebida, aquela que sustentava suas maldades.

Teus escravos não consertaram tua cadeira de balanço favorita. Agora estais sentado no áspero chão do arrependimento. Enlouquecido. Enlouquecido pela sanidade que te fez ver o trágico rumo dos botões, que hoje desabrocharam como flores azuis e sem vida. São teus filhos, os sem-vida!

Sua mulher nem mais olha para as cores dos dias ou das noites. Ela aprendeu a ser cega. Nem os olhos da alma piscam mais para a vivência do abismo que vossa pessoa criou.

Um demônio.

Não necessita mais se enrolar no cobertor da esperança, pobre diabo, que nem o frio te quer mais.

Essas tuas chagas criam o odor da tua decomposição. Só as moscas te fazem companhia! Os urubus te cercam interessados na tua herança.

- xóóó! – grita para eles.

Sua voz não passa da garganta, não é?

Nem teus cascos servem mais de ataque.

Não-causa-mais-medo!

Não adianta desejar ardentemente a morte. Essa só virá depois de teres sofrido até a última gota, e ainda resta um frasco inteiro.

Fique só você, tuas moscas, os urubus e a solidão.

Toda sua companhia inseparável.

Mas antes de sair... Ah! Antes de sair, eu cuspo no chão ao teu lado para mostrar-te o nojo que tenho da tua decadência... Aquela que sempre desejei ver em teus famigerados olhos!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Entre pensamentos e ações.

Soprou um novo momento. Não um começo. Apenas mais um dia em que abri os olhos para viver, mas eu estava escassa de mim. Tudo estava lá, menos eu. Todos os móveis e eu em lugar nenhum. O tempo foge - como fogem os pássaros dos predadores. Voam rápidos.

Quero paz.

Quero cores novas.

Embora tudo continue como está.

Menos eu. Eu não estava lá.

Eu não existia.

O céu estava com cara de domingo: limpo e com algumas afastadas nuvens sem sardas.

Eu, estava ofegante. Andava meio depressa.

Cheguei ao meio do jardim e parei. Olhei o céu naquela imensidão.

Afundei os joelhos na terra fofa e usei minhas mãos de apoio.

Sentia a terra pulsando em meus dedos. Estava viva, úmida, com o cheiro da chuva.

Eu tremia e uma lágrima brincou pela minha face e despencou, como se despencam os suicidas das pontes.

Era solidão.

A porta bateu. Respirei longamente duas vezes seguidas. A primeira foi dor. A segunda, alívio.

Então eu joguei as fotos pela janela. E cortei os botões azuis das rosas.

Não existia mais nada.

Não existia você. Não existia os móveis.

Tudo saiu do lugar e novas cores amanheceram.

Eu estava lá, finalmente.

Viva. A vontade de existir pulsava no meu sangue.

Finalmente eu me sentia.

E como era bom me sentir.

Um sorriso agora.

Era liberdade.

Eu a sentia nas minhas veias. Uma liberdade com um toque de solidão, mas não importava. Eu me pertencia, eu era livre.

Nesse momento, a terra passou a sentir minha vivacidade.

Estava viva, morna e com cheiro de liberdade.

quarta-feira, 9 de julho de 2008



Viver.dói.,também!.