segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Guarde um sonho bom para mim.

Talvez ela começasse a sonhar no estilo do “era uma vez”, mas era algo mais diferente, no estilo mais dele, no estilo de “uma vez era”. Olhados de cima, nem pareciam que existiam, sabe. Estava escuro e era noite. O céu ia estrelando cada vez que eles matavam um pouquinho da saudade. A única coisa que se via, de cima, era uns pontinhos cor-verde-que-dói-os-olhos e uma brasinha em chama. De perto, pareciam um segundo captado do clique fotográfico: o fundo escuro e eles com quase movimentos, em pause e com a legenda, interprete. Um minuto para a imortalidade em cores de outono, meio amarelado pelo flash e embaçado pela agitação da câmera - os olhos.
Ela chegou atrasada. Quando entrou na sala, ele estava lá, calmo, sentado e lendo – como de costume. Ele a viu e fechou o livro com aquele sorriso que se diz oi. Ela respondeu também, com um sorriso de olá.
- Hoje poderei desfrutar da sua companhia? – perguntou ela.
- Só se eu puder ter a tua! – respondeu ele.
- Faz tempo desde a última vez!
- É, faz tempo. Estava sentindo falta de suas palavras.
- E eu das suas.
- Vamos para a varanda?
- Vamos.
Ele sentou na rede. Ela sentou na sacada para observar o céu com mais facilidade.
- Ainda o céu. – Disse ele.
- Ainda. – ela falou olhando para cima.
- Você com seu vício inocente e eu com o meu nocivo – Disse ele acendendo o cigarro.
- Nem por isso você deixa de compartilhar os meus vícios.
- E você nunca precisou compartilhar dos meus. Diria que não faz parte da multidão em furta-cor que você carrega, mesmo sozinha.
- Eu compartilho de um vício seu: as palavras.
- Essas palavras que tanto amo.
- É, essas palavras que tanto amo e odeio. Paradoxalmente, a antítese mais gostosa da minha vida.
- Intensas! Todas as palavras.
- Como seus sentimentos. Como as cores que te compõe.
Ele riu.
Ela olhou para o céu.
- Que dia é hoje? – perguntou ela.
- Você escolhe. Pode ter sido ontem, hoje ou amanhã. Eu prefiro dizer que é agora.
- Sem linearidade.
- Sem linearidade.
- Gosto de como subentende o segredo do tempo. Tu fazes uma narrativa sem início, meio e fim instigando a quem dizes sobre o valor da estação.
- Tempo é vida.
- É tudo e nada.
- Estou em primavera.
- Eu em outono.
- Por que outonas? Sempre me pareceu tão primavera.
- Estou me resguardando do exterior.
- Para se encher dos sentimentos não-corruptos do mundo?
- Na verdade, para expor ao mundo meus sentimentos contemporâneos.
- Passei um tempo em inverno com os olhos afundados para meu “in”. Via um abismo e quando eu o encarava ele lia meus medos.
- O que você fez?
- Convidei-me para sair!
- E agora primaveras com seu “in” para “out”.
- Diria que vivo lendo meu out e escrevendo-o, mas é que o out tá tão dentro do in que às vezes misturo tudo.
Riram.
- Como você definiria nosso convívio? – Perguntou ela.
- Nuance. Para mim, não existe melhor palavra.
- Você não poderia ter definido melhor.
- Assim como você me definiu de caixa de som, na foto.
Sorriram.
- Ainda está lá.
- Ainda estou lá.
Silêncio.
- Sabe aquela sensação de que você tem um amigão/amigona e ficam grudados o dia inteiro, mas por razões do destino acabam se vendo menos no dia a dia e dá aquela saudade do tipo: véééi, preciso falar urgentemente com Maria/Chico. E aquela saudade só passa quando voltam a andar grudados de novo??
Então, é assim que me sinto quando ficamos muito tempo sem trocar palavras.
Ele a olhou com carinho.
- Sabe, essa sua mania de fazer de cada sentimento uma história diferente me encanta. Precisamos mesmo sempre prosear, falar sobre o céu, sobre o mar, sobre o mais!
Olharam-se em sorriso.
- Como é quando acorda? – Interrogou ele.
- Sei como é meu sempre. Sempre soube, desde que nos conhecemos sem nos conhecer, que és meu amigo. É sentir, sabe. Sinto que é e isso me basta.
- Sou cético. Mas quando se trata de sentir, como sabes, acredito.
- “Todo abismo é navegável a barquinho de papel”, Guimarães Rosa. Lembrei disso agora, sobre o abismo de antes, dos medos.
- “E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti”, Nietzsche.
- O abismo nada mais é do que o lado escuro que não conhecemos da casa.
- Só acender a luz. O difícil, apenas, é encontrar o interruptor e encarar o que se viu, porque nem sempre gostamos do que vemos e apagamos a luz.
- Mas não seremos os mesmos depois da nova descoberta.
- Mas pode-se fingir.
- Fingir é superficial. Não combina com você que é intenso.
- Nem com você que é feita de amor da cabeça aos pés.
Foi a vez dela: olhou-o com carinho.
- Você é o conjunto de tudo. Se é para te falar, falaria e falo que é feito de poeticidade da cabeça aos pés. Sempre será poesia. Rapaz, vou guardar tuas cores comigo.
Ele levantou e beijou-a na testa.
- Qual será nosso próximo cenário? – Perguntou ele olhando para o céu.
- Talvez uma casinha na rua Himmel antes do bombardeio. – ela respondeu olhando para o céu.
- Sempre o céu.
- Sempre.
Silêncio.
- Como de praxe, ótimas trocas de palavras. Mas tenho que ir, porque o galo já canta.
- Sempre ótimo falar-te. Obrigada por ter guardado um sonho bom para mim. – Disse sorrindo.
- Te vejo?
- No meu sonho, no teu sonho!
Ele riu.
Ela completou o sorriso:
- Bom acordar-te.
- O mesmo para ti, querida. Acordarei – disse com um sorriso serelepe – vendo uns pontinhos verdes toda vez que piscar.
Ela olhou para as unhas: verde-fluorescente-brega.
Riram.
Abraçaram-se.
Despediram-se.
Eram eles: queridos amigos.
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Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba, Jota?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Quimera.

Seus olhos verde-musgo procuravam algo desesperadamente para se apoiarem.

Eu senti pena da sua fragilidade infantil. Suas rugas não diziam muita coisa. Não eram, sequer, experiência. Uma criança debilitada que procurava o seio de uma mãe para se sentir protegido. Uma criança afugentada em uma pele de uva seca.

Da sua boca não mais escorria o escárnio, mas estava trêmula para gritar um choro angustiante.

E seu tronco encurvado, as pernas debilitadas... Não causava mais medo. Não era mais temido como antigamente. As pessoas agora sentem pena, dó! O peso das traições, intolerância, chicotadas, batidas! Ah, essas pesam sobre seu coração. Nunca foi amado, nunca amou. Agora o fardo do não-amor aperta tua mente. Não te servem mais bebida, aquela que sustentava suas maldades.

Teus escravos não consertaram tua cadeira de balanço favorita. Agora estais sentado no áspero chão do arrependimento. Enlouquecido. Enlouquecido pela sanidade que te fez ver o trágico rumo dos botões, que hoje desabrocharam como flores azuis e sem vida. São teus filhos, os sem-vida!

Sua mulher nem mais olha para as cores dos dias ou das noites. Ela aprendeu a ser cega. Nem os olhos da alma piscam mais para a vivência do abismo que vossa pessoa criou.

Um demônio.

Não necessita mais se enrolar no cobertor da esperança, pobre diabo, que nem o frio te quer mais.

Essas tuas chagas criam o odor da tua decomposição. Só as moscas te fazem companhia! Os urubus te cercam interessados na tua herança.

- xóóó! – grita para eles.

Sua voz não passa da garganta, não é?

Nem teus cascos servem mais de ataque.

Não-causa-mais-medo!

Não adianta desejar ardentemente a morte. Essa só virá depois de teres sofrido até a última gota, e ainda resta um frasco inteiro.

Fique só você, tuas moscas, os urubus e a solidão.

Toda sua companhia inseparável.

Mas antes de sair... Ah! Antes de sair, eu cuspo no chão ao teu lado para mostrar-te o nojo que tenho da tua decadência... Aquela que sempre desejei ver em teus famigerados olhos!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Entre pensamentos e ações.

Soprou um novo momento. Não um começo. Apenas mais um dia em que abri os olhos para viver, mas eu estava escassa de mim. Tudo estava lá, menos eu. Todos os móveis e eu em lugar nenhum. O tempo foge - como fogem os pássaros dos predadores. Voam rápidos.

Quero paz.

Quero cores novas.

Embora tudo continue como está.

Menos eu. Eu não estava lá.

Eu não existia.

O céu estava com cara de domingo: limpo e com algumas afastadas nuvens sem sardas.

Eu, estava ofegante. Andava meio depressa.

Cheguei ao meio do jardim e parei. Olhei o céu naquela imensidão.

Afundei os joelhos na terra fofa e usei minhas mãos de apoio.

Sentia a terra pulsando em meus dedos. Estava viva, úmida, com o cheiro da chuva.

Eu tremia e uma lágrima brincou pela minha face e despencou, como se despencam os suicidas das pontes.

Era solidão.

A porta bateu. Respirei longamente duas vezes seguidas. A primeira foi dor. A segunda, alívio.

Então eu joguei as fotos pela janela. E cortei os botões azuis das rosas.

Não existia mais nada.

Não existia você. Não existia os móveis.

Tudo saiu do lugar e novas cores amanheceram.

Eu estava lá, finalmente.

Viva. A vontade de existir pulsava no meu sangue.

Finalmente eu me sentia.

E como era bom me sentir.

Um sorriso agora.

Era liberdade.

Eu a sentia nas minhas veias. Uma liberdade com um toque de solidão, mas não importava. Eu me pertencia, eu era livre.

Nesse momento, a terra passou a sentir minha vivacidade.

Estava viva, morna e com cheiro de liberdade.

quarta-feira, 9 de julho de 2008



Viver.dói.,também!.





segunda-feira, 7 de julho de 2008


Um mosaico!

de

p e -

d a -

ç os


coloridos.


Cada pedaço tem um céu.
Cada céu um sentimento.
Cada sentimento com um pouco de cor.
Cada cor uma aquarela de esperança.

Pintam-se os quadros em esperança.
As formas se contornam aos poucos.
Quando cada personagem conhece um pouco do outro neles mesmos.
Um pouco de mim em você e um pouco de você em mim.

E as surrealidades - que muitos vêem - estão apenas na vivência individual.
Em outras dimensões, quem sabe, não passam de realidades normais.

Quem sabe, sabe?
Ninguém viu... Ninguém viu.

Está além do que podemos traçar.
Objetos abstratos quase inaudíveis na redoma em que viveis,
Decifrados apenas pelos que hedonizam.

Eis o segredo: S E N T I R !


sexta-feira, 30 de maio de 2008

Entre monstros e contos...

Ficar no escuro não é tão desagradável quanto eu achava há um tempo. É, creio que cresci! Pena ter perdido parte da inocência nesse período. No entanto, alguns fantasmas sempre permanecem; por mais que sumam por um tempo, eles voltam. Algumas coisas nunca mudam. Nunca mesmo.

Ultimamente correr para encontrar o sol virou hobbie, alguma coisa tem que ficar quente. Não que exista um pedaço de gelo, há um (r)esfriamento de lágrimas não caídas. Passam a fazer parte dessa realidade outras ilusões.

As especulações sobre qualquer coisa têm incomodado tanto que me pergunto se tudo vale à pena mesmo. Existem coisas que ninguém merece ouvir, outras que nunca serão ditas ou subentendidas. Pequenos fantasmas continuam criando propensões a catástrofes.

É... Algumas coisas nunca mudam!

Dentro de você, quantos vultos existem?

A madrugada não é mais tão apreciada como antes. Há outros vícios agora. Algumas músicas continuam fazendo falta e uma parcela de pessoas foram embora. Eu continuo inspirando a vida entre o que não faz sentido e as significações. Um sono interrompido. Porém, nem tudo é assombração. No decorrer de incontáveis minutos, descobre-se que algumas assombrações eram sombras de um objeto qualquer. O medo se esvai.

A cabeça tem importunado mais esses dias. Feridas que não eram para existir acabam exteriorizando coisas que pensava que se extinguiram. Expirando a vida em um sono sem poder dormir. Outras assombrações já não são puramente sombras. Não se pode fugir de especificidades.

Não existe esconderijo eficaz quando sua paz é ameaçada constantemente. Não tem acordar só você, uma brisa e um pensamento bom voando.

Às vezes, eu só quero poder respirar, apenas tudo isso.

Dê-me um pouco de tempo, ok?


Just a little time... for my breath.


Ps: Choveu um pouco hoje. O tempo estava meio oscilante. Ora nublado ora sol. E assim demarco meu dia. Prefiro lembrá-lo pelo céu que a cor fez do que pelas datas que compõem as horas. Uma pequena mania, só isso.




Catherine Menon*, memórias de fantasma.



Dans l’avenir et lê passé.

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* Catherine Menon é uma personagem criada por mim para uma história que ainda não saiu da minha cabeça. Contudo ela já se faz presente em alguns contos meus.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Formas de amor.

Anacronismo amoroso

Porquanto houver luz

Na claridade de [alg]um[s] sorriso[s].

Na pintura de dois semblantes multi-coloridos.

Um amor meio-bossa-nova, meio-velha-guarda

Pintado com um blues de negritude

e as passadas de um jazz passado.

Era amor. Um amor pretérito que pré-extinguido

Não era acabado, mas extinto.

Sem preconceito.

Sem pré-conceitos. Sem idéias

pré-concebidas.

Vanguarda sem linearidade

Nova tendência esse amor

meio-velha-guarda meio-bossa-nova!

Denotação de fervor

Conduta nova

Contemporâneo quase não conhecido, esse tal amor.




...

"Um pouco de calor em noites frias
E sonhos em dias de insônia.
Cantarei as melodias dos seus passos
Desenharei o barulho do teu sorriso
Velarei pelos piscares de olhos
Teus olhos. Meus olhos.
Olhos nossos, tão juntos, tão amados...
Tão velados..."



Um tilintar na memória

~> Foi assim no primeiro instante

A primeira valsa

O primeiro beijo...

O primeiro abraço ficou,

A saudade voou como borboleta nova

A valsa acabou,

O beijo passou.

O vestido coloridamente pintado

Desbotou com o tempo.

As traças fizeram um bom trabalho também.

Tirei do baú as lembranças.

Joguei fora os retratos.

Enfim, aquilo dentro do peito

Que aconteceu no primeiro instante

Não passou

Não voou

Não desbotou

Ficou.

Depois que você se foi, eu fiquei,

Você levou o tocar

Eu fiquei com o sentir.

E não é tão agradável assim.