Ela chegou atrasada. Quando entrou na sala, ele estava lá, calmo, sentado e lendo – como de costume. Ele a viu e fechou o livro com aquele sorriso que se diz oi. Ela respondeu também, com um sorriso de olá.
- Hoje poderei desfrutar da sua companhia? – perguntou ela.
- Só se eu puder ter a tua! – respondeu ele.
- Faz tempo desde a última vez!
- É, faz tempo. Estava sentindo falta de suas palavras.
- E eu das suas.
- Vamos para a varanda?
- Vamos.
Ele sentou na rede. Ela sentou na sacada para observar o céu com mais facilidade.
- Ainda o céu. – Disse ele.
- Ainda. – ela falou olhando para cima.
- Você com seu vício inocente e eu com o meu nocivo – Disse ele acendendo o cigarro.
- Nem por isso você deixa de compartilhar os meus vícios.
- E você nunca precisou compartilhar dos meus. Diria que não faz parte da multidão em furta-cor que você carrega, mesmo sozinha.
- Eu compartilho de um vício seu: as palavras.
- Essas palavras que tanto amo.
- É, essas palavras que tanto amo e odeio. Paradoxalmente, a antítese mais gostosa da minha vida.
- Intensas! Todas as palavras.
- Como seus sentimentos. Como as cores que te compõe.
Ele riu.
Ela olhou para o céu.
- Que dia é hoje? – perguntou ela.
- Você escolhe. Pode ter sido ontem, hoje ou amanhã. Eu prefiro dizer que é agora.
- Sem linearidade.
- Sem linearidade.
- Gosto de como subentende o segredo do tempo. Tu fazes uma narrativa sem início, meio e fim instigando a quem dizes sobre o valor da estação.
- Tempo é vida.
- É tudo e nada.
- Estou em primavera.
- Eu em outono.
- Por que outonas? Sempre me pareceu tão primavera.
- Estou me resguardando do exterior.
- Para se encher dos sentimentos não-corruptos do mundo?
- Na verdade, para expor ao mundo meus sentimentos contemporâneos.
- Passei um tempo em inverno com os olhos afundados para meu “in”. Via um abismo e quando eu o encarava ele lia meus medos.
- O que você fez?
- Convidei-me para sair!
- E agora primaveras com seu “in” para “out”.
- Diria que vivo lendo meu out e escrevendo-o, mas é que o out tá tão dentro do in que às vezes misturo tudo.
Riram.
- Como você definiria nosso convívio? – Perguntou ela.
- Nuance. Para mim, não existe melhor palavra.
- Você não poderia ter definido melhor.
- Assim como você me definiu de caixa de som, na foto.
Sorriram.
- Ainda está lá.
- Ainda estou lá.
Silêncio.
- Sabe aquela sensação de que você tem um amigão/amigona e ficam grudados o dia inteiro, mas por razões do destino acabam se vendo menos no dia a dia e dá aquela saudade do tipo: véééi, preciso falar urgentemente com Maria/Chico. E aquela saudade só passa quando voltam a andar grudados de novo??
Então, é assim que me sinto quando ficamos muito tempo sem trocar palavras.
Ele a olhou com carinho.
- Sabe, essa sua mania de fazer de cada sentimento uma história diferente me encanta. Precisamos mesmo sempre prosear, falar sobre o céu, sobre o mar, sobre o mais!
Olharam-se em sorriso.
- Como é quando acorda? – Interrogou ele.
- Sei como é meu sempre. Sempre soube, desde que nos conhecemos sem nos conhecer, que és meu amigo. É sentir, sabe. Sinto que é e isso me basta.
- Sou cético. Mas quando se trata de sentir, como sabes, acredito.
- “Todo abismo é navegável a barquinho de papel”, Guimarães Rosa. Lembrei disso agora, sobre o abismo de antes, dos medos.
- “E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti”, Nietzsche.
- O abismo nada mais é do que o lado escuro que não conhecemos da casa.
- Só acender a luz. O difícil, apenas, é encontrar o interruptor e encarar o que se viu, porque nem sempre gostamos do que vemos e apagamos a luz.
- Mas não seremos os mesmos depois da nova descoberta.
- Mas pode-se fingir.
- Fingir é superficial. Não combina com você que é intenso.
- Nem com você que é feita de amor da cabeça aos pés.
Foi a vez dela: olhou-o com carinho.
- Você é o conjunto de tudo. Se é para te falar, falaria e falo que é feito de poeticidade da cabeça aos pés. Sempre será poesia. Rapaz, vou guardar tuas cores comigo.
Ele levantou e beijou-a na testa.
- Qual será nosso próximo cenário? – Perguntou ele olhando para o céu.
- Talvez uma casinha na rua Himmel antes do bombardeio. – ela respondeu olhando para o céu.
- Sempre o céu.
- Sempre.
Silêncio.
- Como de praxe, ótimas trocas de palavras. Mas tenho que ir, porque o galo já canta.
- Sempre ótimo falar-te. Obrigada por ter guardado um sonho bom para mim. – Disse sorrindo.
- Te vejo?
- No meu sonho, no teu sonho!
Ele riu.
Ela completou o sorriso:
- Bom acordar-te.
- O mesmo para ti, querida. Acordarei – disse com um sorriso serelepe – vendo uns pontinhos verdes toda vez que piscar.
Ela olhou para as unhas: verde-fluorescente-brega.
Riram.
Abraçaram-se.
Despediram-se.
Eram eles: queridos amigos.
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Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba, Jota?