sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ela de todos nós.

É uma menina encabulada. Não, não é pequena. Condensada e guarda um mundo todo dentro dela.
Um mundo maior do que qualquer um possa imaginar: ninguém vê, mas às vezes pesa. Uma menina que carrega mais coisas na memória do coração metafórico do que na física dor do peso. Sem ombros curvados hoje, beibe.

- SEM OMBROS CURVADOS NOS PRÓXIMOS DIAS. - Gritou, usando todo o ar dos pulmões.

Seguiu o caminho escutando a música que escolheu para a descoberta. Rebolou os braços e balançou o quadril. Fechou os olhos e seguiu.

~> De olhos para dentro: revela-se que não há solidão quando se tem um mundo todinho para ser desvendado.

E ela? Talvez ela nem mesmo exista aos nossos olhos. E o que importa? O bom mesmo é quando ela vem até você, cola os lábios na sua testa, te pega pela mão e leva você ao lugar secreto: o interior dos interiores.

Um nome? Ela tem vários, o mais comum é Consciência.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Prece

O que mais desejo é que a fonte que em mim transborda possa ser sempre de novas águas. Que Deus tenha piedade desse vasto mundo de águas heterogêneas que em mim vive. Não saberei ser se essa fonte secar. Preciso do excesso de sentires para saber que sou e que vivo.

Carma

Não sei porque insisto. Não sei. Insistir em escrever, digo. Mas não faz diferença. Nem sei por que estou aqui, pra começar. Talvez pela estranheza. A verdade é que não sei usar despedidas. Simplesmente sumo, me parece mais fácil e menos doloroso: sopro de vida em outro lugar. Novidade maquiada. Mas você se arrasta sempre dentro de mim. Como um amuleto, não sei se dá sorte ou azar. Acho que os dois.



Um punhado de trevo dequatrofolhas e um espelho quebrado.
Só adicione um pouco de água.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Desafogo.

"Toda trilha é andada com a fé

De quem crê no ditado

de que o dia insiste em nascer"


Primeiro paro diante do espelho e me observo: falta água.

Estou murcha, perdi algumas pétalas e os espinhos não me protegem como antes, pelo contrário. Estou seca, sem adubo, perdendo a vida e o verde já não me veste mais. O marrom anda combinando mais com meus olhos, que estão tristes, mas ainda lutam por um pouco de amor. Vou me desfolhar, me despetalar e isso vai doer – embora já esteja doendo ainda que não assuma – até que, finalmente, eu veja um pequeno botão cor vermelho-sangue, esse vermelho que sempre me vestiu bem, que mostra o ápice da existência na minha íris, que me faz inspirar – e encontrar - o cheiro de vida no meio da decomposição de uma era que foi difícil dizer adeus. Então eu vou escutar todas as músicas, rever todas as lembranças, apoiar minha mão sobre meu coração e deitar encolhida abafando meu choro, porque é uma dor só minha, uma dor que preciso vivê-la sozinha, uma dor que precisa consumir meu corpo e minha alma para, enfim, eu me libertar. Uma dor que ninguém tem que perguntar o porquê, que ninguém precisa me acalentar, porque é minha, só minha e só eu sei. Só eu sei a mistura de todas as angústias, de todas as pontadas. Só eu sei a sensação do passado pontiagudo enfiar-se dilacerante sobre meu peito e ficar remoendo na ferida aberta, lembrando-me que eu ainda não me desapeguei e que me finquei mais fundo do que eu podia.

E apesar de todo esse egoísmo, tem gente que eu sei que não vai embora, tem gente que consegue formar um sorriso no meu rosto e fazer derramar algumas lágrimas de felicidade, porque nem tudo é fim de festa, fim de noite e fim do pouco de nós. E eu sei que posso seguir em frente, que eu tenho força pra isso, que eu tenho astúcia para o novo, que eu tenho idéias para o meu progresso, que eu tenho amor dentro de mim.

E acaba que alguém vem, pega um pouco da minha dor, limpa minhas lágrimas e aponta para o futuro, então eu rio e percebo que não estou só.


E que nunca estarei, apesar dos invernos cortantes da vida
.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Uma pitada de conversa Robertista

E depois de ter mastigado e engolido todos esses sentimentos, até então não triturados, eu fiquei esperando ansiosa pelo final da digestão. Foi a melhor opção, estava sem condições de ficar me digladiando com os peixes estranhos e cegos, foi por isso que resolvi mergulhar no silêncio da região abissal. Gosto bastante do silêncio, aliás, o silêncio tem sido a melhor música nestes últimos tempos. Depois é só sair sozinha, sem rumo e com todos esses pensamentos (e um caderno para anotar todas as receitas das idéias). No entanto, vomitarei toda essa pressão da vida antes do meu passeio, não quero levar pesos nem medidas, não mesmo. Eis que viver, também, é estar em resguardo do exterior, de todo esse calor, de todos esses peixes... E ando com tanta preguiça para esses peixes que fugir deles e se refugiar em mim vem soando tão reconfortante, que vou dar um murro na próxima pessoa a qual me falar que não ando vivendo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Corda bamba.

Não quero que me doa nada hoje. Nem amanhã. Nem depois. Quero ponto final em tudo, quero que tudo chegue logo no final, que se acabe. Mas não quero isso de um todo querer. Quero de querer um pouco, a outra parte do querer fica na surpresa do mistério. Por isso meus quereres se dão tão bem. Pólos energicamente contrários. Falta, apenas, um pouco mais de emoção, de circo: malabares, cores, mágicas, brincadeira, risadas e piruetas. Só não falta a platéia. É um espetáculo para poucos, ou ninguém - além de mim - ou apenas um par, quem sabe. Talvez, no final, eu descubra o ímpar: só o eu.

Por enquanto, sou equilibrista e nada mais.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Perfume da pele: à sensação. Ao prazer do toque. Ao queimar da epiderme. À fumaça dos poros.

“Ando tão à flor da pele
Que até um beijo de novela me faz chorar”
(Zeca Baleiro)




Ela nem percebeu direito quando ele chegou. Quando tudo aconteceu, de súbito. Ela foi se descobrindo gradativamente:
Primeiro, a confusão.
Segundo, a doença.
Terceiro, a aceitação.
E o quarto ponto ainda está a se desenrolar. Está, ainda, caminhando sobre linha tênue que separa o mergulho de ponta, a imersão de todo o corpo – e alma – ou cair do outro lado, afastado, em um horizonte iludido, distante de tudo isso.
Contudo, ela sabe. Ela sabe com todas as L-E-T-R-A-S que não se pode fugir disso, seja lá o que isso for. Seja lá o que signifique.
Uma vez, tudo bem, há o perdão. Duas vezes, não está tudo bem, tem algo dissemelhante.
Há o perdão, ainda! Mas não se pode correr. E é um deus-nos-acuda. Uma lambada de pensamentos. Um punhado de notas musicais. E ¼ de lágrimas não caídas. Além das gargalhadas, claro. Além do tudo pode acontecer, inclusive o nada.
Ele ainda está lá. Está sorrindo para ela, criando ciúmes nela. Prendendo-a sem nem saber. Dizendo palavras que eleva o [des]conhecido dela, tomando atitudes que germina a dúvida dentro dela. E, por enquanto, ela é só isso: morna. Tudo o que ela não queria ser. Tudo que ela é por tempo indeterminado.


E o quente [dela], queima à flor da pele.