Que até um beijo de novela me faz chorar”
(Zeca Baleiro)

E o quente [dela], queima à flor da pele.
** Guardando pétalas de rosas dentro de um caderno virtual.

E o quente [dela], queima à flor da pele.

Seus olhos verde-musgo procuravam algo desesperadamente para se apoiarem.
Eu senti pena da sua fragilidade infantil. Suas rugas não diziam muita coisa. Não eram, sequer, experiência. Uma criança debilitada que procurava o seio de uma mãe para se sentir protegido. Uma criança afugentada em uma pele de uva seca.
Da sua boca não mais escorria o escárnio, mas estava trêmula para gritar um choro angustiante.
E seu tronco encurvado, as pernas debilitadas... Não causava mais medo. Não era mais temido como antigamente. As pessoas agora sentem pena, dó! O peso das traições, intolerância, chicotadas, batidas! Ah, essas pesam sobre seu coração. Nunca foi amado, nunca amou. Agora o fardo do não-amor aperta tua mente. Não te servem mais bebida, aquela que sustentava suas maldades.
Teus escravos não consertaram tua cadeira de balanço favorita. Agora estais sentado no áspero chão do arrependimento. Enlouquecido. Enlouquecido pela sanidade que te fez ver o trágico rumo dos botões, que hoje desabrocharam como flores azuis e sem vida. São teus filhos, os sem-vida!
Sua mulher nem mais olha para as cores dos dias ou das noites. Ela aprendeu a ser cega. Nem os olhos da alma piscam mais para a vivência do abismo que vossa pessoa criou.
Um demônio.
Não necessita mais se enrolar no cobertor da esperança, pobre diabo, que nem o frio te quer mais.
Essas tuas chagas criam o odor da tua decomposição. Só as moscas te fazem companhia! Os urubus te cercam interessados na tua herança.
- xóóó! – grita para eles.
Sua voz não passa da garganta, não é?
Nem teus cascos servem mais de ataque.
Não-causa-mais-medo!
Não adianta desejar ardentemente a morte. Essa só virá depois de teres sofrido até a última gota, e ainda resta um frasco inteiro.
Fique só você, tuas moscas, os urubus e a solidão.
Toda sua companhia inseparável.
Mas antes de sair... Ah! Antes de sair, eu cuspo no chão ao teu lado para mostrar-te o nojo que tenho da tua decadência... Aquela que sempre desejei ver em teus famigerados olhos!
Soprou um novo momento. Não um começo. Apenas mais um dia em que abri os olhos para viver, mas eu estava escassa de mim. Tudo estava lá, menos eu. Todos os móveis e eu em lugar nenhum. O tempo foge - como fogem os pássaros dos predadores. Voam rápidos.
Quero paz.
Quero cores novas.
Embora tudo continue como está.
Menos eu. Eu não estava lá.
Eu não existia.
O céu estava com cara de domingo: limpo e com algumas afastadas nuvens sem sardas.
Eu, estava ofegante. Andava meio depressa.
Cheguei ao meio do jardim e parei. Olhei o céu naquela imensidão.
Afundei os joelhos na terra fofa e usei minhas mãos de apoio.
Sentia a terra pulsando em meus dedos. Estava viva, úmida, com o cheiro da chuva.
Eu tremia e uma lágrima brincou pela minha face e despencou, como se despencam os suicidas das pontes.
Era solidão.
A porta bateu. Respirei longamente duas vezes seguidas. A primeira foi dor. A segunda, alívio.
Então eu joguei as fotos pela janela. E cortei os botões azuis das rosas.
Não existia mais nada.
Não existia você. Não existia os móveis.
Tudo saiu do lugar e novas cores amanheceram.
Eu estava lá, finalmente.
Viva. A vontade de existir pulsava no meu sangue.
Finalmente eu me sentia.
E como era bom me sentir.
Um sorriso agora.
Era liberdade.
Eu a sentia nas minhas veias. Uma liberdade com um toque de solidão, mas não importava. Eu me pertencia, eu era livre.
Nesse momento, a terra passou a sentir minha vivacidade.
Estava viva, morna e com cheiro de liberdade.

Um mosaico!
de
p e -
d a -
ç os
coloridos.
Cada pedaço tem um céu.
Cada céu um sentimento.
Cada sentimento com um pouco de cor.
Cada cor uma aquarela de esperança.
Pintam-se os quadros em esperança.
As formas se contornam aos poucos.
Quando cada personagem conhece um pouco do outro neles mesmos.
Um pouco de mim em você e um pouco de você em mim.
E as surrealidades - que muitos vêem - estão apenas na vivência individual.
Em outras dimensões, quem sabe, não passam de realidades normais.
Quem sabe, sabe?
Ninguém viu... Ninguém viu.
Está além do que podemos traçar.
Objetos abstratos quase inaudíveis na redoma em que viveis,
Decifrados apenas pelos que hedonizam.
Eis o segredo: S E N T I R !